{"id":11250,"date":"2026-02-10T07:06:32","date_gmt":"2026-02-10T10:06:32","guid":{"rendered":"https:\/\/maisoeste.com.br\/?p=11250"},"modified":"2026-02-10T10:11:35","modified_gmt":"2026-02-10T13:11:35","slug":"brasil-no-espelho-o-que-podemos-aprender-com-o-livro-de-felipe-nunes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/maisoeste.com.br\/?p=11250","title":{"rendered":"Brasil no espelho: o que podemos aprender com o livro de Felipe Nunes?"},"content":{"rendered":"\n<p>O Brasil que emergiu da redemocratiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas mais plural; \u00e9 tamb\u00e9m mais conflituoso consigo mesmo. \u00c0 medida que o pa\u00eds passou a se ver como um conjunto de m\u00faltiplas identidades \u2014 raciais, regionais, de g\u00eanero, geracionais, religiosas \u2014, o espelho devolveu uma imagem desconfort\u00e1vel: na m\u00e9dia, continuamos sendo uma sociedade conservadora, profundamente religiosa, apegada \u00e0 fam\u00edlia, desconfiada do outro e c\u00e9tica em rela\u00e7\u00e3o a solu\u00e7\u00f5es coletivas.<\/p>\n\n\n\n<p>O grande m\u00e9rito emp\u00edrico de Brasil no Espelho, de Felipe Nunes, est\u00e1 em organizar, com base em quase 10 mil entrevistas (maior levantamento j\u00e1 feito sobre valores, atitudes e percep\u00e7\u00f5es no pa\u00eds), esse emaranhado de cren\u00e7as em 137 indicadores e nove segmentos de identidade. Sociologicamente, por\u00e9m, o livro nos obriga a ir al\u00e9m da fotografia e perguntar: que regime moral \u00e9 esse que combina f\u00e9 intensa, m\u00e9rito exaltado, cansa\u00e7o difuso e medo generalizado?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Deus, fam\u00edlia e tradi\u00e7\u00e3o: o n\u00facleo moral<br><\/strong>Religi\u00e3o e fam\u00edlia continuam sendo os pilares centrais da autoimagem brasileira. A pesquisa mostra que 96% dos brasileiros acreditam que Deus est\u00e1 \u201cno comando\u201d de suas vidas, ideia que atravessa denomina\u00e7\u00f5es e inclui inclusive parte dos que se declaram sem religi\u00e3o formal. N\u00e3o se trata apenas de cren\u00e7a abstrata: Deus \u00e9 percebido como agente ativo, que decide destinos, corrige rumos e oferece sentido a acontecimentos imprevis\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>No plano da vida cotidiana, esse Deus se encontra com a fam\u00edlia, que 96% definem como \u201ca coisa mais importante da vida\u201d. A fam\u00edlia \u00e9 o ponto de partida e de chegada: lugar de afeto, inst\u00e2ncia de cuidado, rede de prote\u00e7\u00e3o quando Estado e mercado falham. Mesmo quando o modelo tradicional \u00e9 relativizado \u2014 90% associam fam\u00edlia a amor, \u201cindependentemente do modelo\u201d \u2014, ela permanece no centro das motiva\u00e7\u00f5es, expectativas e decis\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A pesquisa traz um dado bastante relevante para explicar a posi\u00e7\u00e3o central ocupada pela fam\u00edlia na vida dos brasileiros. \u201cVer a fam\u00edlia feliz\u201d \u00e9 o principal sonho de 19% dos entrevistados. A felicidade da fam\u00edlia est\u00e1 \u00e0 frente de sonhos como ter sa\u00fade (17%) ou ter uma casa pr\u00f3pria (11%).<\/p>\n\n\n\n<p>Esse n\u00facleo moral \u2014 Deus acima de tudo, fam\u00edlia em primeiro lugar \u2014 sustenta um tipo espec\u00edfico de conservadorismo. As normas de g\u00eanero continuam marcadas por pap\u00e9is tradicionais: espera-se que os homens sejam provedores e protetores, que as mulheres conciliem cuidado, coragem e contribui\u00e7\u00e3o financeira. A homossexualidade \u00e9 majoritariamente vista como injustific\u00e1vel, ainda que tolerada \u00e0 dist\u00e2ncia; o racismo \u00e9 reconhecido \u201cna sociedade\u201d, mas negado em n\u00edvel individual, sobretudo entre brancos e gera\u00e7\u00f5es mais velhas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Individualismo meritocr\u00e1tico e \u201cempreendedorismo de exaust\u00e3o\u201d<br><\/strong>Se f\u00e9 e fam\u00edlia organizam o pertencimento, o individualismo organiza a responsabilidade. Tr\u00eas em cada quatro brasileiros afirmam que s\u00f3 podem contar consigo mesmos. Esse dado n\u00e3o descreve apenas uma percep\u00e7\u00e3o; ele aponta para uma moralidade: a ideia de que a vida \u00e9, em \u00faltima inst\u00e2ncia, uma prova de esfor\u00e7o individual.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso se expressa de forma cristalina na atitude diante das pol\u00edticas sociais. A maioria resiste a pol\u00edticas de redistribui\u00e7\u00e3o de renda focalizadas nos mais pobres, por entender que \u201cs\u00f3 se deve ajudar quem faz por merecer\u201d. Ricos e pobres pensam de modo parecido: mesmo entre os de renda mais baixa, predomina a desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o a aux\u00edlios vistos como est\u00edmulo \u00e0 pregui\u00e7a. Ao mesmo tempo, muitos acreditam que os ricos s\u00e3o ricos sobretudo por terem nascido em fam\u00edlias ricas, n\u00e3o por m\u00e9rito extraordin\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>A contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 reveladora: o fracasso do outro \u00e9 atribu\u00eddo \u00e0 falta de merecimento; o sucesso do outro, \u00e0 sorte ou ao favorecimento; j\u00e1 o nosso pr\u00f3prio fracasso \u00e9 explicado por \u201cdesfavorecimento\u201d e o eventual sucesso, por esfor\u00e7o. Estamos diante de um individualismo moralizado, que funciona como lente seletiva: endurece o julgamento sobre quem recebe ajuda, mas suaviza o escrut\u00ednio sobre a estrutura que concentra renda e oportunidades.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 nesse contexto que Nunes fala em \u201cempreendedorismo de exaust\u00e3o\u201d. Com o avan\u00e7o da informaliza\u00e7\u00e3o e a multiplica\u00e7\u00e3o de \u201cbicos\u201d, 83% dos brasileiros dizem querer ter um neg\u00f3cio pr\u00f3prio, n\u00e3o ter patr\u00e3o. A figura do empreendedor \u00e9 exaltada como ideal de autonomia, mas, na pr\u00e1tica, milh\u00f5es se tornam microempreendedores n\u00e3o por voca\u00e7\u00e3o, e sim por necessidade, como resposta defensiva \u00e0 queda de renda e \u00e0 fragiliza\u00e7\u00e3o do emprego formal. Assim, muitos empreendem motivados pelo medo dos problemas causados pela falta de dinheiro e n\u00e3o pelo sonho de uma vida financeira mais confort\u00e1vel.<br>Trabalha-se mais para manter a renda e, ao estabiliz\u00e1-la, assume-se ainda mais risco.<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado \u00e9 uma cultura do esfor\u00e7o permanente, que gera cansa\u00e7o difuso: 51% relatam espontaneamente emo\u00e7\u00f5es negativas ligadas ao cansa\u00e7o, frustra\u00e7\u00e3o e satura\u00e7\u00e3o. Nesse arranjo, a meritocracia n\u00e3o \u00e9 apenas narrativa; \u00e9 mecanismo de autopreserva\u00e7\u00e3o ps\u00edquica: acreditar que \u201ctudo depende de mim\u201d \u00e9 uma forma de suportar um ambiente de competi\u00e7\u00e3o feroz, instabilidade e baixa prote\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Medo, inseguran\u00e7a e punitivismo<br><\/strong>Ao lado da f\u00e9 e do m\u00e9rito, o medo comp\u00f5e o eixo emocional do Brasil contempor\u00e2neo. Viol\u00eancia, criminalidade e tr\u00e1fico de drogas aparecem como principal preocupa\u00e7\u00e3o nacional, qualquer que seja a classe social. Mais da metade dos brasileiros afirma n\u00e3o se sentir segura ao andar pelas ruas de sua cidade.<br>Interessante notar que essa sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a n\u00e3o depende diretamente da incid\u00eancia de crimes no entorno imediato. Muitas pessoas que vivem em regi\u00f5es menos violentas relatam n\u00edveis de medo semelhantes aos que moram em \u00e1reas mais cr\u00edticas. Essa desconex\u00e3o sugere que a sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a \u00e9 tamb\u00e9m produto de narrativas disseminadas por meios de comunica\u00e7\u00e3o, redes sociais e discursos pol\u00edticos.\u200b<\/p>\n\n\n\n<p>Esse cen\u00e1rio alimenta um consenso punitivista. A cren\u00e7a majorit\u00e1ria \u00e9 que a solu\u00e7\u00e3o para o crime n\u00e3o est\u00e1 em pol\u00edticas preventivas, mas em puni\u00e7\u00f5es mais duras: redu\u00e7\u00e3o da maioridade penal, amplia\u00e7\u00e3o de penas, simpatia com a pena de morte para crimes hediondos. Ao mesmo tempo, a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o v\u00ea nas armas individuais a melhor resposta; prefere uma pol\u00edcia forte e equipada, com alto grau de confian\u00e7a depositado na institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Nunes sintetiza esse c\u00edrculo vicioso: o medo gera desconfian\u00e7a, a desconfian\u00e7a alimenta o punitivismo, o punitivismo promete ordem, mas raramente cumpre, o que retroalimenta o medo. Em termos sociol\u00f3gicos, o Estado desejado n\u00e3o \u00e9 m\u00ednimo, mas seletivamente forte: fraco para regular mercado e desigualdades, forte para punir e vigiar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Orgulho natural, vergonha social<br><\/strong>Quando olham para o pa\u00eds, os brasileiros sentem orgulho principalmente daquilo que \u201cn\u00e3o fizemos\u201d: praias, florestas, paisagens \u201caben\u00e7oadas por Deus\u201d. O Brasil natural \u00e9 fonte de orgulho; o Brasil social \u2014 da viol\u00eancia, da corrup\u00e7\u00e3o, do \u201cjeitinho\u201d \u2014 \u00e9 motivo de vergonha.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u201cjeitinho brasileiro\u201d, frequentemente romantizado como tra\u00e7o criativo, aparece na pesquisa com avalia\u00e7\u00e3o predominantemente negativa: associado a malandragem, corrup\u00e7\u00e3o e desonestidade. Ainda assim, uma parcela significativa o define como \u201cestrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia\u201d, isto \u00e9, como forma de navegar em um sistema percebido como hostil e ineficiente.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 a\u00ed uma ambival\u00eancia estrutural: condenamos a transgress\u00e3o em abstrato, mas relativizamos comportamentos \u201cflex\u00edveis\u201d quando percebemos o contexto como injusto. Trata-se de uma moralidade situacional, que convive com o discurso de honestidade r\u00edgida, mas o adapta \u00e0s necessidades pr\u00e1ticas da sobreviv\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ideologia, r\u00f3tulos e Estado forte<br><\/strong>Quase todos os brasileiros hoje se situam no eixo esquerda\u2013direita, mas essa autoidentifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o se traduz em coer\u00eancia program\u00e1tica. A pesquisa mostra que, embora sejamos um pa\u00eds de centro-direita em valores, amplamente conservador em costumes, h\u00e1 forte ades\u00e3o a ideias estatistas t\u00edpicas da esquerda: 98% consideram dever do Estado garantir educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade gratuitas; 96% acham que o Estado deve assegurar boas condi\u00e7\u00f5es de vida para todos.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pr\u00e1tica, isso significa que muitos brasileiros que se declaram de direita rejeitam o Estado m\u00ednimo e defendem forte presen\u00e7a estatal em \u00e1reas-chave; enquanto parte dos que se declaram de esquerda mant\u00e9m posi\u00e7\u00f5es conservadoras em temas de costumes, fam\u00edlia e seguran\u00e7a. Os r\u00f3tulos ideol\u00f3gicos funcionam mais como marcadores de pertencimento afetivo \u2014 \u201cde que lado estou\u201d na polariza\u00e7\u00e3o \u2014 do que como express\u00e3o de doutrinas consistentes.\u200b<\/p>\n\n\n\n<p>A disputa central, portanto, n\u00e3o \u00e9 entre dois projetos ideol\u00f3gicos fechados, mas entre quem consegue alinhar moral (fam\u00edlia, f\u00e9, ordem), seguran\u00e7a (punitivismo eficaz) e bem-estar (Estado que funciona) de maneira pragm\u00e1tica. Em outras palavras: quem convence o eleitor de que, al\u00e9m de pensar como ele, \u00e9 capaz de fazer as coisas \u201cfuncionarem\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que nos une: um consenso conservador cansado<br><\/strong>Nunes prop\u00f5e uma s\u00edntese do que nos une como pa\u00eds: religiosidade intensa, centralidade da fam\u00edlia, individualismo meritocr\u00e1tico, cansa\u00e7o com a luta di\u00e1ria e preocupa\u00e7\u00e3o generalizada com seguran\u00e7a. A isso se soma uma desconfian\u00e7a cr\u00f4nica em rela\u00e7\u00e3o ao outro, \u00e0s institui\u00e7\u00f5es e \u00e0 pol\u00edtica, um machismo persistente e uma \u201chonestidade relativa\u201d, que julga com rigor os desvios dos outros, mas relativiza os pr\u00f3prios.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse \u201cconsenso conservador cansado\u201d convive com fissuras profundas. Dividimo-nos sobre modelos familiares, sexualidade, papel das mulheres, reconhecimento do racismo, extens\u00e3o do assistencialismo e grau de interven\u00e7\u00e3o do Estado na economia. A polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica intensifica essas divis\u00f5es, colando sobre elas r\u00f3tulos de esquerda e direita, petismo e antipetismo, mas n\u00e3o as cria do zero.\u200b<br>Nove segmentos, muitos Brasis<\/p>\n\n\n\n<p>A grande inova\u00e7\u00e3o classificat\u00f3ria do livro est\u00e1 na identifica\u00e7\u00e3o de nove segmentos identit\u00e1rios. Eles n\u00e3o substituem classes ou clivagens tradicionais, mas aumentam a nossa capacidade de entender com mais profundidade como combina\u00e7\u00f5es de f\u00e9, trabalho, territ\u00f3rio e consumo de informa\u00e7\u00e3o produzem \u201cbolhas\u201d relativamente consistentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Os conservadores crist\u00e3os, maior grupo (27%), s\u00e3o majoritariamente evang\u00e9licos e cat\u00f3licos praticantes, com forte valoriza\u00e7\u00e3o da ordem, da obedi\u00eancia e da hierarquia familiar. Para eles, a defesa da fam\u00edlia \u00e9 pauta central, pap\u00e9is de g\u00eanero s\u00e3o mais r\u00edgidos e a seguran\u00e7a p\u00fablica ocupa lugar priorit\u00e1rio. Votaram em massa em Jair Bolsonaro e tendem a rejeitar a esquerda, especialmente o PT.\u200b<\/p>\n\n\n\n<p>Os dependentes do Estado (23%) concentram-se no Norte, Nordeste e periferias do Sudeste, com menor poder de compra. S\u00e3o os que mais defendem um Estado forte no combate \u00e0 desigualdade, aceitando inclusive aumento de impostos para financiar pol\u00edticas redistributivas. Ao mesmo tempo, compartilham com o restante da sociedade a suspeita sobre benefici\u00e1rios \u201cpregui\u00e7osos\u201d, o que revela o quanto o discurso meritocr\u00e1tico penetra at\u00e9 entre os mais vulner\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>O agro (13%) \u00e9 mais que setor econ\u00f4mico: \u00e9 ethos cultural. Concentrado no Centro-Oeste, Sul e interior de estados como S\u00e3o Paulo e Minas, re\u00fane grandes produtores, trabalhadores rurais e pessoas ligadas \u00e0 cultura sertaneja. Em termos de valores, \u00e9 fortemente tradicionalista e conservador, alinhado a pautas como flexibiliza\u00e7\u00e3o de armas, afrouxamento de regula\u00e7\u00f5es ambientais e oposi\u00e7\u00e3o ao governo Lula.<\/p>\n\n\n\n<p>Os progressistas (cerca de 12%) re\u00fanem mais mulheres, jovens e pessoas de renda acima da m\u00e9dia, com forte sensibilidade para pautas de minorias, direitos das mulheres, diversidade sexual e crise clim\u00e1tica. Informam-se menos pela TV e mais por canais digitais, e votaram majoritariamente em Lula em 2022. Em normas de g\u00eanero e fam\u00edlia, s\u00e3o o grupo mais distante da m\u00e9dia nacional.\u200b<\/p>\n\n\n\n<p>Os militantes de esquerda (7%) formam o segmento mais ancorado em partido pol\u00edtico, com alta escolaridade e forte interesse por pol\u00edtica. Desde o impeachment de Dilma Rousseff, vivem a pol\u00edtica em chave de revanche e polariza\u00e7\u00e3o: enxergam o mundo por meio do conflito \u201cn\u00f3s contra eles\u201d, atribuindo m\u00e9ritos quase exclusivos ao governo Lula e demonizando a oposi\u00e7\u00e3o.\u200b<\/p>\n\n\n\n<p>A elite empresarial (6%) \u00e9 composta por brancos, mais velhos, concentrados no Sul e Sudeste. Preferem agendas econ\u00f4micas liberais, privatiza\u00e7\u00f5es e redu\u00e7\u00e3o do papel do Estado na economia, e s\u00e3o cr\u00edticos a benef\u00edcios sociais focalizados. Curiosamente, embora se considerem \u201cmodernos\u201d e hiperconectados, figuram entre os grupos que menos colocam Deus no centro da vida \u2014 ainda assim, n\u00e3o rompem completamente com a matriz religiosa majorit\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Os liberais sociais (5%) ocupam uma posi\u00e7\u00e3o \u201cmorna\u201d em meio \u00e0 polariza\u00e7\u00e3o. Defendem liberdade individual, voto n\u00e3o obrigat\u00f3rio, redu\u00e7\u00e3o de impostos e do tamanho do Estado, mas tamb\u00e9m valorizam a democracia, a imagem internacional do pa\u00eds e a modera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Votaram em nomes como Simone Tebet e sonham com uma \u201cterceira via\u201d que rompa com a l\u00f3gica bin\u00e1ria do debate p\u00fablico.<br>Os empreendedores individuais (5%) constituem a face subjetiva da nova economia de aplicativos e informalidade. Em maioria homens de classe m\u00e9dia, sobretudo no Sul e Sudeste, valorizam fortemente o esfor\u00e7o pessoal, s\u00e3o refrat\u00e1rios a sindicatos e institui\u00e7\u00f5es tradicionais e t\u00eam vis\u00e3o negativa do Estado, visto como obst\u00e1culo e n\u00e3o como prote\u00e7\u00e3o. S\u00e3o tamb\u00e9m terreno f\u00e9rtil para discursos de autoajuda financeira e promessas de enriquecimento r\u00e1pido difundidas por influenciadores digitais.\u200b<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, a extrema direita (3%) agrega aqueles que, al\u00e9m de valores conservadores em costumes, expressam baixa ou nenhuma ades\u00e3o \u00e0 democracia como valor. Defendem um poder central forte, nacionalista, por vezes autorit\u00e1rio, s\u00e3o hostis \u00e0 participa\u00e7\u00e3o do Estado em pol\u00edticas sociais e ambientais e demonstram simpatia por regimes ditatoriais. Apesar de minorit\u00e1rio \u2014 cerca de seis milh\u00f5es de pessoas \u2014, esse grupo exerce influ\u00eancia desproporcional no debate p\u00fablico, especialmente nas redes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Entre a m\u00e9dia e a fratura<br><\/strong>O quadro que emerge dessas \u201cnove bolhas\u201d \u00e9 o de um pa\u00eds que compartilha um ch\u00e3o moral comum \u2014 f\u00e9, fam\u00edlia, m\u00e9rito, medo \u2014, mas se organiza politicamente em torno de experi\u00eancias muito distintas de mundo. Um empreendedor individual de classe m\u00e9dia urbana, um dependente do Estado do interior nordestino, uma progressista jovem de capital e um conservador crist\u00e3o de periferia metropolitana partilham, em alguma medida, cren\u00e7as sobre Deus, fam\u00edlia e esfor\u00e7o; mas divergem profundamente sobre como o Estado deve agir, quem merece ser ajudado, que direitos devem ser ampliados e que tipo de ordem deve prevalecer.<\/p>\n\n\n\n<p>Teoricamente, isso sugere que o Brasil n\u00e3o pode mais ser lido apenas em termos de \u201cclasses\u201d ou \u201cblocos ideol\u00f3gicos\u201d, recortes rasos para entender a complexidade e diversidade que caracteriza a forma\u00e7\u00e3o dos brasileiros. H\u00e1 um ecossistema de valores que combina elementos do neoliberalismo, do tradicionalismo religioso e do estatismo desenvolvimentista. O resultado \u00e9 um pa\u00eds onde se pede mais Estado para punir e proteger, menos Estado para tributar e regular, e quase nenhum Estado para redistribuir de forma focalizada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O espelho como desafio<br><\/strong>Brasil no Espelho mostra um pa\u00eds que se v\u00ea, mas nem sempre se reconhece: conservador, individualista, cansado, punitivista e, ao mesmo tempo, estatista em demandas b\u00e1sicas. Para a sociologia, o desafio n\u00e3o \u00e9 apenas descrever esse mosaico, mas compreender como ele se transforma quando novas crises econ\u00f4micas, tecnol\u00f3gicas e pol\u00edticas se somam \u00e0 exaust\u00e3o j\u00e1 instalada.<\/p>\n\n\n\n<p>O espelho entrega uma imagem inc\u00f4moda: uma sociedade que sacraliza a f\u00e9, mas desconfia da solidariedade; que idolatra o m\u00e9rito, mas naturaliza privil\u00e9gios; que teme a viol\u00eancia, mas acredita mais na puni\u00e7\u00e3o do que na preven\u00e7\u00e3o; que reclama do Estado, mas espera dele quase tudo. O que faremos com essa imagem \u2014 refor\u00e7\u00e1-la ou tension\u00e1-la \u2014 talvez seja a principal quest\u00e3o pol\u00edtica brasileira da pr\u00f3xima d\u00e9cada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>*Yuri Almeida \u00e9 estrategista pol\u00edtico, professor e especialista em campanhas eleitorais<br>*Guilherme Barbosa \u00e9 jornalista especialista em Comunica\u00e7\u00e3o P\u00fablica e MBA em Comunica\u00e7\u00e3o e Marketing<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil que emergiu da redemocratiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas mais plural; \u00e9 tamb\u00e9m mais conflituoso consigo mesmo. \u00c0 medida que o pa\u00eds passou a se ver como um conjunto de m\u00faltiplas identidades \u2014 raciais, regionais, de g\u00eanero, geracionais, religiosas \u2014, o espelho devolveu uma imagem desconfort\u00e1vel: na m\u00e9dia, continuamos sendo uma sociedade conservadora, profundamente religiosa, 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