{"id":14859,"date":"2026-07-21T07:37:08","date_gmt":"2026-07-21T10:37:08","guid":{"rendered":"https:\/\/maisoeste.com.br\/?p=14859"},"modified":"2026-07-21T07:37:10","modified_gmt":"2026-07-21T10:37:10","slug":"a-copa-do-mundo-do-goleiro-do-apito-e-do-cartao-de-trump","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/maisoeste.com.br\/?p=14859","title":{"rendered":"A Copa do Mundo do goleiro, do apito e do cart\u00e3o de Trump"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O brioso esporte bret\u00e3o, como se dizia antigamente, antes da descoberta de que o futebol j\u00e1 era habitu\u00e9 na China e no M\u00e9xico antes de vir a ser, tem sua mania curiosa: quando a bola rola, todo mundo acha que entende tudo. O torcedor vira t\u00e9cnico, o comentarista vira juiz. E aparece cada juiz de \u00faltima hora com novidades que \u00e9 uma piada pronta. Nem vou falar de Donald Trump&#8230; Ali\u00e1s, pode ser que eu fale. A Copa do Mundo de 2026 entrou para essa galeria de hist\u00f3rias curiosas, daquelas que rendem conversa de botequim, risada de arquibancada, cr\u00f4nica de jornal e, tamb\u00e9m, choro eterno.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi uma Copa dos goleiros. Aqueles homens que antigamente usavam preto e eram vistos como urubus, de tanto azar que emanavam. E que depois passaram a usar vestimentas estranhas, de tantas cores estranhas, e muitas vezes passavam noventa minutos quase esquecidos. Desta vez resolveram roubar a cena. Enquanto os atacantes treinavam comemora\u00e7\u00f5es e os marqueteiros preparavam capas de revista, os goleiros tratavam de fazer milagres. Teve defesa que parecia encomendada diretamente ao espiritismo \u2014 que me perdoe o velho Allan Kardec, que, at\u00e9 onde se saiba, nunca bateu um baba; talvez no sobrenatural. O chute ia para um canto, a bola j\u00e1 comemorava o gol e, de repente, surgia uma m\u00e3o salvadora. Nunca vi tantas pontas de dedo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m foi a Copa dos craques consagrados. Menos de Vini Jr. e de Neymar, coitado, que \u00e9 uma v\u00edtima do destino \u2014 e voc\u00ea que venha com os caninos de fora morder minha canela. Os nomes esperados apareceram, fizeram o que deles se esperava e provaram que talento n\u00e3o envelhece; apenas muda de endere\u00e7o. Mas, como toda grande competi\u00e7\u00e3o, o Mundial tamb\u00e9m revelou seus coadjuvantes: aqueles jogadores que ningu\u00e9m colocou na lista dos her\u00f3is e que terminaram ganhando aplausos. Ta\u00ed o goleiro Vozinha. E os caras da Sele\u00e7\u00e3o de Cabo Verde.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agora, se houve uma categoria que teve atua\u00e7\u00e3o irregular, foi a dos homens do apito. Os \u00e1rbitros pareciam disputar uma competi\u00e7\u00e3o particular para saber quem conseguia transformar um lance simples em uma reuni\u00e3o internacional. O VAR, que nasceu como salvador da p\u00e1tria, em alguns momentos parecia mais um complicador oficial. O torcedor olhava para a televis\u00e3o, olhava para o replay, olhava para o juiz e continuava com a mesma pergunta: &#8220;Afinal, foi falta ou foi filosofia?&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi tamb\u00e9m o Mundial das contus\u00f5es, dos jogadores cansados, das pernas pesadas e das macas fazendo quase parte da escala\u00e7\u00e3o. Houve momentos em que parecia que o maior duelo da Copa n\u00e3o era entre as sele\u00e7\u00f5es, mas entre os atletas e o calend\u00e1rio apertado. Alguns jogadores entravam em campo j\u00e1 precisando de um abra\u00e7o amigo e de uma semana de descanso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas nenhuma inven\u00e7\u00e3o do futebol moderno conseguiu superar uma velha paix\u00e3o humana: misturar bola e poder. Depois da Copa de 1982, quando o xeque do Kuwait invadiu o gramado para anular um gol da Fran\u00e7a a piada ruim foi a cria\u00e7\u00e3o de uma nova posi\u00e7\u00e3o: o &#8220;\u00e1rbitro supremo&#8221;. Donald Trump aparece como esse personagem capaz de dar cart\u00e3o amarelo para a FIFA e amea\u00e7ar aplicar um vermelho institucional caso suas vontades n\u00e3o fossem atendidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Era a fantasia perfeita de uma cr\u00f4nica: o homem que n\u00e3o estava no campo querendo apitar o jogo; o juiz olhando para o banco de reservas e perguntando se precisava consultar algu\u00e9m antes de marcar uma falta; a entidade m\u00e1xima do futebol tentando equilibrar a bola com a diplomacia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E assim vai terminando mais uma Copa: com goleiros transformados em santos, atacantes em deuses tempor\u00e1rios, \u00e1rbitros em personagens de com\u00e9dia e torcedores descobrindo que, no futebol, \u00e0s vezes, o maior espet\u00e1culo n\u00e3o est\u00e1 apenas nos gols \u2014 est\u00e1 tamb\u00e9m nas hist\u00f3rias que nascem depois deles. Nem quero citar a Sele\u00e7\u00e3o do Brasil. Teve sele\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Por Jolivaldo Freitas<\/strong><br><strong>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-<br><\/strong><em>Escritor e jornalista, autor do romance &#8220;A Peleja dos Zuavos Baianos Contra Dom Pedro, os Ga\u00fachos e o Satan\u00e1s&#8221;.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O brioso esporte bret\u00e3o, como se dizia antigamente, antes da descoberta de que o futebol j\u00e1 era habitu\u00e9 na China e no M\u00e9xico antes de vir a ser, tem sua mania curiosa: quando a bola rola, todo mundo acha que entende tudo. O torcedor vira t\u00e9cnico, o comentarista vira juiz. 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