Desconstrução e polarização na disputa eleitoral brasileira

Nas eleições presidenciais de 2026, as estratégias de desconstrução no marketing político terão ainda mais importância. Diante de um cenário da estagnação das intenções de voto e do fenômeno do “teto eleitoral” de lideranças como Lula e Flávio Bolsonaro, a comunicação política desloca-se da “construção de atributos” para a “desconstrução do adversário”. A ativação de afetos aversivos será conceito chave nas narrativas eleitorais.

A premissa clássica da escolha racional pressupõe que o eleitor avalia o desempenho governamental de forma pragmática. Contudo, a aplicação da Teoria dos Marcadores Somáticos de Antonio Damasio ao cenário brasileiro revela uma dissonância cognitiva. Embora indicadores econômicos e sociais apresentam saldos positivos, a percepção subjetiva de bem-estar é mediada pelo custo de vida imediato. Se a percepção de perda de poder de compra não for endereçada por uma narrativa de indignação contra um ‘culpado’ externo, o governo torna-se o único alvo dessa frustração.

Para Damasio, a tomada de decisão não é um processo puramente analítico; ela depende de sinais biológicos que atribuem valor às opções. Quando o eleitor experimenta a inflação de alimentos como uma “ameaça somática”, os dados estatísticos perdem sua força persuasiva. A desconstrução do adversário atua justamente nesse mecanismo: ela busca criar um marcador somático negativo tão intenso no oponente que qualquer “melhora econômica” do lado de cá pareça irrelevante diante do “perigo” que o outro representa.

A estagnação das pesquisas em 2026 encontra explicação na obra de Drew Westen. Em The Political Brain, Westen demonstra que o cérebro dos eleitores partidários “desliga” o córtex pré-frontal (racional) diante de evidências contrárias ao seu candidato.

Neste cenário de “tetos” intransponíveis, a estratégia de reforçar os atributos de Lula — como os avanços sociais — colide com a blindagem cognitiva do eleitor opositor. Paralelamente, para o eleitorado volúvel de centro, o custo de vida atua como um ruído que impede a consolidação do apoio. A desconstrução torna-se, portanto, a ferramenta de maior custo-benefício: em vez de tentar “furar a bolha” com fatos (tarefa neurobiologicamente árdua), a estratégia foca em converter o oponente em um objeto de medo e indignação, forçando o eleitor à rejeição por instinto de preservação.

A polarização brasileira é, essencialmente, uma polarização afetiva. Chantal Mouffe argumenta que o político é o terreno do agonismo, onde as identidades são forjadas na distinção radical entre o “Nós” e o “Eles”. Em 2026, a comunicação de Lula e Flávio Bolsonaro não busca o consenso, mas a exacerbação da fronteira identitária.

A desconstrução é o motor desse processo. Ao associar o adversário a valores abjetos, as campanhas ativam a indignação ética, que, como postulado por Stéphane Hessel, é o que retira o indivíduo da indiferença. Em um contexto onde a “esperança” está desgastada pela realidade econômica, a indignação e a revolta tornam-se os únicos combustíveis capazes de gerar mobilização eleitoral e combater a abstenção.

Por fim, a dinâmica entre Lula e Flávio Bolsonaro pode ser lida sob a lente de Baruch Spinoza. O voto brasileiro atual é um “voto por tristeza” (diminuição da potência de agir causada pelo custo de vida). No jogo das paixões tristes, o medo é mais potente que a razão. Ao focar na desconstrução de Flávio Bolsonaro, a estratégia lulista busca ativar o que ele chama de “Rejeição Útil”. Se o governo não consegue elevar sua aprovação devido ao custo de vida, ele deve, obrigatoriamente, elevar a rejeição do oponente para que o eleitor vote “pelo mal menor”.

Se o governo não consegue transmutar os indicadores positivos em “alegria” (aumento da potência percebida pelo eleitor no mercado), a única saída política é garantir que o medo em relação ao oponente seja superior ao desconforto com o presente. A estratégia de desconstrução, ao focar na insegurança e no ódio, opera na manutenção do poder através da regulação desses afetos passivos.

A eficácia da desconstrução no processo eleitoral de 2026 não é um desvio ético, mas uma resposta estratégica à saturação das narrativas de construção. Em um Brasil onde o bolso do eleitor sente um peso que o gráfico não traduz, a batalha política deixa de ser uma disputa de projetos e torna-se uma guerra de afetos negativos. A vitória pertencerá àquele que melhor souber canalizar a indignação e a revolta da população, não contra a realidade econômica, mas contra a figura do adversário transformado em ameaça suprema.

O ecossistema digital brasileiro favorece a Estética da Revolta. A indignação é o algoritmo mais potente. O conteúdo que gera esperança tem um alcance orgânico limitado; o conteúdo que gera indignação ou medo é viral. Em 2026, a desconstrução será digitalmente mais eficiente porque ela ‘conversa’ melhor com os algoritmos de engajamento social.

Texto – Yuri Almeida é professor, estrategista político e especialista em campanhas eleitorais

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