Carros elétricos e montadoras chinesas redesenham a indústria automotiva brasileira

O último Corolla produzido em Indaiatuba (SP) em junho e os primeiros veículos eletrificados que começam a sair da fábrica da GWM em Iracemápolis (SP), na região de Piracicaba (SP), contam uma mesma história: a transformação do mercado automotivo brasileiro.

Dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) e um levantamento do g1 apontam que o Brasil não está perdendo fábricas de carros, mas trocando o perfil industrial.

Essa tendência, com maior impulso após a pandemia, tem como cenário fábricas deixadas por marcas tradicionais e, muitas vezes, ocupadas por montadoras focadas em eletrificação.

Isso ocorreu no interior de São Paulo com a Mercedes-Benz, em Iracemápolis, cuja fábrica foi ocupada pela chinesa GWM. Também ocorreu com a Ford, em Camaçari (BA) e em Horizonte (CE), que deram lugar a investimentos da chinesa BYD e da britânica MG Motor, respectivamente.

  • Veículos eletrificados incluem modelos híbridos e elétricos, que utilizam eletricidade para reduzir ou substituir o uso de combustíveis fósseis.

Novas fabricantes também já anunciaram produção nacional de eletrificados.

Segundo especialista ouvido pelo g1, a tendência é o desenvolvimento de veículos cada vez mais eficientes, tecnológicos e eletrificados, com forte presença da indústria chinesa nessa transformação.

Neste contexto, a Anfavea defende medidas para proteger a competitividade dos investimentos feitos pelas montadoras na indústria automotiva nacional para enfrentar o aumento das importações da Ásia. Além disso, a entidade é contra o modelo de montagem de carros que tem sido adotado pelas chinesas.

Em nota, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços informou que retomou temporariamente cotas de importação por estarem alinhadas a ações de renovação da frota, inovação e descarbonização.

Crescimento do setor automotivo

Segundo a Anfavea, a produção nacional de veículos passou de 2,36 milhões de veículos em 2022 para 2,64 milhões em 2025. Apenas no primeiro semestre de 2026, já foram produzidas 1,37 milhão de unidades. Ao mesmo tempo, os carros eletrificados deixaram de ser um nicho para se tornar um dos motores do mercado.

Em 2016, o Brasil vendeu pouco mais de mil veículos eletrificados. Dez anos depois, apenas no primeiro semestre de 2026, já foram mais de 215 mil unidades, de acordo com a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE).

O crescimento dos híbridos e elétricos também redesenhou a fatia do mercado brasileiro de eletrificados ocupada pelas montadoras tradicionais.

Em 2022, a japonesa Toyota liderava com folga e concentrava 55,3% das vendas do segmento de eletrificados. Na sequência apareciam montadoras tradicionais e marcas europeias de luxo, como Volvo, BMW, Land Rover e Mercedes-Benz.

Quatro anos depois, o cenário é outro. No primeiro semestre de 2026, as chinesas BYD e GWM lideram o mercado — a primeira com 46,08% de participação e 99 mil veículos vendidos. A Toyota caiu para o terceiro lugar, seguida de outras duas chinesas no ranking: Geely e Omoda Jaecoo.

Por que o Brasil é atraente para os chineses?

  • É um dos maiores mercados automotivos do mundo.
  • A eletrificação ainda está em fase inicial, deixando espaço para modelar o mercado.
  • As barreiras à entrada foram historicamente menores do que em outros mercados desenvolvidos, que têm barreiras protecionistas.

Transformação inédita

Para o economista da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e especialista em ascensão geopolítica e tecnológica da China, José Eduardo Roselino, a indústria vive uma transformação sem precedentes.

“Por 100 anos a indústria automobilística só tinha inovações incrementais, pequenos aperfeiçoamentos que não mudavam a estrutura do automóvel. Isso está mudando agora. Estamos passando por uma transformação ligada à descarbonização e à transição energética, com veículos híbridos, híbridos plug-in, elétricos e outras novas tecnologias surgindo”, disse.

Segundo ele, o avanço das montadoras chinesas está ligado ao domínio de tecnologias como software, semicondutores e sistemas eletrônicos. “O automóvel está se tornando cada vez mais um computador sobre rodas”, resumiu.

Além disso, segundo ele, os chineses têm uma vantagem competitiva muito grande porque produzem em enorme escala e conseguem reduzir custos continuamente.

Fonte//G1

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